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[ Territórios Invisíveis ]

Invisibilidades Sociais num país imaginado

João Ferreira Dias

As palavras têm peso porque adquirem significados culturais que lhes conferem uma dimensão particular, veiculando sentidos sociológicos específicos. Tanto o que é dito, quanto o que não é dito, são expressões culturais que aportam a determinadas mundividências. É por isso que a perceção de que o racismo não existe em Portugal, ou que tem uma dimensão social reduzida, não é coincidente com o número de expressões populares de pendor discriminatório, como “que ciganice”, “isso é trabalho pra pretos”, “só fazes judiarias”, entre tantas outras. Apesar delas, toda a gente sabe que Portugal não é racista, e quem não estiver bem com tal disposição diacrítica pode ir embora. É o jeito português de lidar com as coisas, à superfície, na espuma dos acontecimentos. Um povo que se revolta mais com o feminismo do que como femicídio. Um país, que à imagem do Brasil, resolveu os problemas de tensão racial com recurso à segregação. O conflito não existe se o “outro” não fizer parte da malha urbana. À Brandoa quem é da Brandoa. 

Ora, uma das comunidades com maior dificuldade de integração social é a comunidade rom, os ditos “ciganos”. Um dos primeiros entraves é o caráter histórico de nomadismo. Todavia, se tal facto, aliado ao ambiente de perseguição durante o Estado Novo, contribuíram para atrasos significativos nos processos de integração desta comunidade, não é menos verdade que há pelo menos três décadas que uma grande parte dos ciganos portugueses se encontram fixados nas principais cidades portuguesas. O que falha então? Muita coisa. Em primeiro lugar, falha a perceção social em torno dos ciganos. Existem inúmeros lugares-comuns que, pela sua capacidade de propagação popular, produzem uma falaciosa noção de conhecimento da “cultura cigana”, em que se confundem aspetos culturais com padrões de reação aos contextos sociais. Explicitando: é parte da cultura cigana os casamentos combinados como estratégia de gestão de alianças familiares; é parte da cultura cigana o luto definitivo, no qual as mulheres abandonam os aspetos mais vincados da sua feminilidade e os prazeres mundanos, como ouvir música; é parte da cultura cigana os matrimónios de vários dias; é parte da cultura cigana a virgindade feminina como elemento de honra familiar. Não é parte da cultura cigana, mas antes produto de circunstâncias sociais, o crime e a alteridade contrastativa, isto é, o conflito étnico face aos cidadãos mainstream, “os senhores”. Ainda que se tenham entranhado nos comportamentos sociais recorrentes, estes são respostas ao contexto de marginalidade histórica e à incapacidade de contrariar a tendência da segregação social.

Há, todavia, sinais de mudança. O crescimento de jovens rom nas universidades é um aspeto de extrema relevância, servindo de indicador para mudanças comportamentais e de perceção social em curso. Isto porque, contrariamente a mais uma disposição popular que afirma que é parte da cultura cigana a baixa frequência escolar, expressa no vocábulo “os ciganos só vão à escola para aprender a contar o dinheiro, é da cultura deles”, a verdade é que a baixa escolaridade é produto da incapacidade de dialogar com a comunidade cigana, da sua segregação e, consequentemente, da autoexclusão social como mecanismo de defesa identitária. No entanto, o facto de cada vez mais ciganos terminaram o secundário e seguirem para a universidade diz-nos que no seio daquela comunidade o ensino começa a receber o reconhecimento de mais-valia social, de fator de abertura e mobilidade.

Assim, é falacioso o argumento da Direita de que deve ser permitido aos ciganos manterem-se à margem da sociedade a fim de preservarem o seu modus vivendi. Esta lógica é, sobretudo, um ilusionismo que por baixo de um argumento que parece responder à defesa da cultura cigana, esconde uma motivação contrária: a da preservação da distância social. Pelo contrário, a solução passa por políticas de maior inclusão, nomeadamente pela integração gradual de famílias ciganas pelos vários bairros das diversas cidades onde habitam, acabando com os bairros sociais onde estes são realojados, mas onde permanece ativa a lógica de guetização. A mobilidade social e a educação, não afetam os pilares centrais das culturas, pelo contrário, permitem uma maior consciência de si, uma capacidade de reflexão crítica, de mobilização na preservação das identidades culturais, sem com isso rejeitar os fatores de ascensão social, crescimento económico e integração ativa.  

[texto publicado na revista Libertária]

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